segunda-feira, 31 de julho de 2017

Uma mulher negra com as mamas à mostra

No espaço onde acontecem as explicações encontra-se, por acaso, um quadro de uma mulher negra com as mamas à mostra. 

Principalmente por parte dos alunos mais novos, este sempre foi alvo de atenção. Quando se dava de fazerem algum comentário sobre ele, eu propositadamente não desenvolvia a conversa. Isto não por uma questão de recato, o objetivo era outro.

Lembro-me que numa das vezes em que surgiu uma dessas observações, comentei:

- Sabes que se trata de um quadro feito em areia. Há partes que foram pintadas, como podes ver apresenta várias cores.

E acreditem, a intenção não era desviar o interesse dos alunos. Embora soubesse que teria pouco sucesso, eles estavam na altura a aprender sobre a puberdade e as mudanças que implicam, os sistemas reprodutores feminino e masculino, na disciplina de Ciências Naturais e sobretudo estavam a fazer as suas próprias descobertas, pretendia fazê-los ver além do óbvio. 

Tenho a certeza da proficuidade de uma atividade sobre a descrição desta imagem, restringindo a referência à desnudez das mamas da mulher do quadro. Não, mais uma vez, não por querer zelar pelo pudor ou evitar pensamentos perversos (sei piamente que não os tinham, a admiração por aquela imagem se encontrar ali substituía-os).

A mulher possui um semblante misterioso, nem se parece com alguém triste nem tão pouco irradia uma extrema felicidade. O lenço que enverga denuncia-lhe a origem e talvez até a condição... e tanto mais se poderia dizer sobre esta mulher além do facto de ter as mamas à mostra.


A pintura «La trahison des images» de René Magritte serve para o mesmo exercício, deixem que a vossa imaginação vos faça ver mais do que um cachimbo.




Tradução: Isto não é um cachimbo.
La trahison des images, René Magritte, 1929


Escrito por Mariana Pinto

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