quinta-feira, 2 de novembro de 2017

And it was all yellow






O Amarelo nunca foi uma cor consensual. Ainda me lembro de, na escola, quando alguém levava uma peça de roupa amarela, cair um tumulto sobre o Olimpo. No entanto, apesar das coisas sumptuosas que eram ditas, não me coibia de vestir alguns trapos que foram tingidos com a cor do sol (se quiserem um pouco de lirismo) ou da fome (se pretenderem algo mais corrosivo). 

A adolescência passou e o amarelo deve ter ficado, algures, estacionado na bizarria e no desajuste típicos do liceu e das modas do final da primeira década de 2000. 

Em 2012, quando tirei a carta, o examinador hesitou em conceder-me a sua bênção, porque sentiu que eu era um potencial embaraço ao trânsito. Enganou-se. Com o tempo, apurei bem a minha técnica de condução de veículos ligeiros e, se há coisa que eu não sou, é um embaraço. Familiarizei-me bem com os pedais, sobretudo com o que se encontra mais à direita. Como já transbordava confiança, chegou a hora de ter um carro. Amarelo. O meu pai imaginou que a cor que mais se adequava a uma estreante no âmbito da rodoviária era o amarelo. Assenti. Sem medo. 

Vestir amarelo pode gerar a discórdia. Conduzir uma cor primária vibrante é um desafio. A carroçaria amarela desencadeia várias reações, quer nos pedestres quer nos demais condutores que circulam na via pública. Não censuro a espontaneidade e, muito menos, a criatividade das pessoas. Num mundo cinza prata, preto ou azul metalizados, branco pérola (sou capaz de ter inventado a parte do ''pérola'' porque não tenho conhecimentos aprofundados da cromática utilizada no ramo automóvel) e vermelho Ferrari (sim, também desconheço os tons de vermelho), é difícil esbarrar com um amarelo canário e não exclamar «CARRO AMARELO!!!!!!», acompanhado de um calduço. 

Os anos decorreram e o carro amarelo tornou-se num fiel companheiro. Raras foram as vezes em que me deixou ficar mal. E, para uma viatura provecta de 1999, ainda aturou alguns queixumes, frustrações e, acima de tudo, cantorias irritantes com falsetes muito à esquerda. Mas, vá lá, toda a gente quer ter o seu momento James Corden, num Carpool Karaoke. 

Um dia destes, o Bruno decidiu aparecer na rádio que estava sintonizada, com Versace On The Floor. Estava a chover. E eu ia numa estrada rodeada de bosque. O cenário perfeito de anos 80, digno de um enquadramento  de Stranger Things



Versace on the floor
Oooh take it off for me, for me, for me, for me now, girl
Versace on the floor
Oooh take it off for me, for me, for me, for me now, girl



No último «girl», leiam com aquela distorção que aparece na voz, típica de quando alguma coisa vai correr mal. E correu.

Depois do embate, reparei que o rádio, que já não estava fixo devido à colisão, continuou a tocar. Calma Bruno, deixou de ser oportuno continuares a falar de vestidos caros e de propostas indecentes. Desliguei.

Ainda estonteada, percebi que o carro amarelo não tinha salvação. O Camaro, o carro de assistência aos SMTUC, o canário, o táxi de Nova Iorque, o yellow submarine, o amarelinho deixou de existir. 

Provavelmente, vou juntar-me à equipa dos cinzentos cor de prata, dos pretos e dos azuis metalizados, dos brancos ou dos vermelhos e vou ser eu a exclamar «CARRO AMARELO!!!» quando passar por algum... Mas vou exclamar com conhecimento de causa. Porque já tive o gosto de conduzir um carro tingido com a cor do sol (prefiro o lirismo).




Escrito por Susana Ferreira. 

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

O meu lugar está além


Fonte: https://i.pinimg.com/originals/2f/0c/a6/2f0ca60ea328ad34fd475677d5887eca.png



Entre as nove e as dez o volume da música local sobe porque o António Variações apareceu, por acaso, na lista de reprodução. 


Não consigo dominar
Este estado de ansiedade
A pressa de chegar
P'ra não chegar tarde.


Entre as nove e as dez eu não caio num buraco mas cresço e encolho consoante a sombra e a luz dos pensamentos. À minha volta, os operários de copas, de paus, de espadas e de ouros continuam o seu labor para não estancar o fluxo de produção ou aborrecer o maioral. Mais depressa ou mais devagar, eu cresço e encolho e cresço e encolho, enquanto espero pela sentença. 



Esta insatisfação
Não consigo compreender
Sempre esta sensação
Que estou a perder
Tenho pressa de sair
Quero sentir ao chegar
Vontade de partir
P'ra outro lugar.


Entre as nove e as dez passam cinco horas. Entre as nove e as dez há lagartas que me fazem rir e me aquecem com o vapor do cachimbo de água. Também há gatos sinistros que me dizem que vou encontrar o meu lugar e para eu não me preocupar. E há uma mesa, sempre posta e resignada, com uma lebre e um chapeleiro que, estupidamente felizes e descoordenados, me vão oferecendo histórias bizarras com chá e açúcar desconsolados. 


Vou continuar a procurar o meu mundo, o meu lugar
Porque até aqui eu só

Estou bem
Aonde não estou
Porque eu só quero ir
Aonde eu não vou
...


Entre as nove e as dez há um coelho que pergunta: 
- Susana?
- Sim.
- Já falta pouco, Susana. - diz, olhando para o relógio. 

O que é «pouco»? «Pouco» pode ser, apenas, uma hora... Mas entre as nove e as dez não passa só uma hora... E, assim sendo, um dia tem vinte e nove horas... Se todos os dias tiverem vinte e nove horas, os meses ficariam com, aproximadamente, trinta e seis dias... Dependendo do tempo que passa entre as nove e as dez, os meses podem crescer cada vez mais. Se os meses aumentarem, eu vou crescer e encolher vezes sem conta, as lagartas vão precisar de mais tabaco para atestar o cachimbo, os gatos vão precisar de molas para manter os sorrisos e de placas para me indicarem o lugar, já que a boca vai estar tão dorida que não vão conseguir falar. A lebre e o chapeleiro vão ficar sentados a uma mesa vazia, sem histórias para contar. 


Porque eu só estou bem
Aonde não estou.



O António volta amanhã. Na verdade, o António volta quando quiser porque o António já é uma entidade, dada a relevância e a vanguarda. O volume baixa. A porta abre-se. Alguém grita: 


- CORTEM-LHE A CABEÇA!!!!! 


Eu acordo do transe. Já são dez horas e um minuto. Já só falta uma hora para ir para casa. Volto a crescer e acabo de pintar as rosas que faltam. 



Escrito por Susana Ferreira.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Jesus e o Feminismo

As teorias acerca da possível companheira do Messias foram difundidas ao longo da História, inclusive em referências nos próprios evangelhos.  

O grande mote para esta conspiração aparece na pintura de Leonardo Da Vinci, "A última ceia", encomendada ao artista pelo duque de Milão, Ludovico II, de forma a decorar o refeitório do monastério dos padres dominicanos de Santa Maria delle Grazie. 

O quadro representa um momento fulcral do Evangelho de João, quando Jesus anuncia que um dos discípulos o trairia. 

Da Vinci, uma das figuras máximas do Humanismo, dotado de conhecimentos em anatomia, entre as mais diversas áreas, reproduz de modo excecional as reações das várias figuras. ´

A grande particularidade da imagem reside na figura à direita de Jesus, identificada como João. As vestes de todos assemelham-se e alguns discípulos apresentam o cabelo comprido, porém a pessoa do lado direito ao de Cristo denuncia caraterísticas femininas, como um rosto mais fino do que os restantes. 

Fonte: http://www.infoescola.com/wp-content/uploads/2012/03/santa-ceia.jpg


Assim sendo, os estudos apontam para o aparecimento de uma outra personagem a ocupar o lugar de João, Maria Madalena. Embora ela tenha ficado conhecida como "a prostituta" (https://cantosuperiordireito.blogspot.pt/2016/09/5-motivos-pelos-quais-devemos-ler-biblia.html), não existem indícios concretos na Bíblia para tal confirmação. 

Fonte: http://imgsapp2.correiobraziliense.com.br/app/noticia_127983242361/2014/11/10/456916/20141110162931541796e.jpg


As informações preservadas indicam que Maria Madalena seguiu Cristo e tendo em conta que  há um evangelho da sua autoria, presume-se que também ela fosse um dos discípulos. 

A ocultação de tal categoria poderia estar relacionada com a inferioridade atribuída ao género feminino, que começa desde logo na Bíblia. 

Segundo as investigações da área, o mistério do Sant Graal (Sangue Real) não passaria pela localização do cálice onde Cristo teria bebido pela última vez nesta cerimónia, mas pela identificação do filho de Jesus Cristo e Maria Madalena


Caso a figura à direita de Jesus passasse para a sua esquerda.



Após a crucificação, Maria Madalena teria partido para França, tentando assim escapar aos que tentariam aniquilá-la e encobrir para sempre a revelação. 

No país, Maria Madalena teria encontrado proteção e daria seguimento às doutrinas de Cristo, encarnando a figura principal da Igreja Católica


***

A História faz-se também de teorias, mais do que se imagina, por isso interpretá-la é um exercício de cada um. E na verdade, por que não podemos encarar que Jesus Cristo como homem tivesse escolhido uma companheira, a tivesse agregado aos seus próximos e a elegesse sua representante, sendo precursor do feminismo?


Escrito por Mariana Pinto